#02
Sem saber ao certo como reagir, uma vez que, era impossível não relembrar tudo o que tiveram e por mais forte que fosse a vontade de correr e abraçar Alberto intensamente, Manu se conteve, colocou os óculos escuros e subiu a rua em prantos. Caminhou desajeitada em meio às pessoas, com a sensação de estar fazendo algo errado.
— MANU ESPERE! — gritou Alberto.
Ela olha para trás e acelera o passo, agora de fato, fugindo de uma pseudo cena frustrante em sua vida. Beto conseguiu alcança-la e a puxou pelo braço com força. E lá estava ele de frente com Manu, o coração apertado e os instintos indefinidos. Por algum tempo, achou tudo patético, quis solta-la e esquecer aquele dia, mas não teve tempo de reagir. Ela se soltou e atravessou a rua com tanta pressa que não viu o carro.
Em pouco tempo, havia uma multidão em volta do corpo estendido na rua. A sirene da ambulância e a rapidez dos paramédicos denunciavam entre linhas que a situação é grave. Beto foi junto com mais culpa do que há algumas horas atrás. Além de sentir-se o causador de tamanha tragédia, tinha em suas mãos um passado, nem tão distante assim para resolver ou para nunca mais revê-lo.
Sentado na sala de espera do hospital, com a cabeça baixa, mexia as pernas freneticamente ansioso por alguma resposta. Seus amigos o acompanharam, mas resolveram que ficar não adiantaria muito, afinal, a família dela logo chegaria para assumir as responsabilidades.
— Você é da família de Manu Franson? — pergunta a enfermeira de plantão
— Não, sou apenas amigo.
— Tem algum contato com a família dela, mãe, pai, algum irmão?
— Não. Eu não tenho contato há muito tempo.
— Obrigada. Tentaremos localizar algum familiar.
— Tem alguma notícia? Como ela está?
— O médico virá falar com você
— Ela ainda está viva, não está? — diz Beto preocupado
— Se acalme que o médico lhe dará mais informações
Nesse momento chega o médico e informa que Manu passa por uma cirurgia e que estão fazendo o possível para salvar sua vida. Angustiado com a situação resolve fumar um cigarro e decidiria o que faria daquele momento em diante. Refletia que nada era por acaso e o ocorrido de alguma forma, interferiria em sua vida para sempre.
A cada tragada do cigarro, Beto se aproximava das lembranças do seu passado e era no dia 11 de maio de 1993 que se imaginava. Ao som de black do Pearl Jam com uma long neck de cerveja na mão, mais magro, cabelos compridos e com a camiseta dos Sex Pistols encostado no balcão de um pub que ia com a galera do colégio as sextas-feiras. Enquanto seus amigos tentavam convencer algumas meninas a irem para suas casas Beto gostava de curtir a música, observar a galera e “encher a cara”.
Adorava ver como as meninas eram extremamente sensuais e algumas vezes, percebia que simulavam uma falsa inocência, mas por experiência própria e um coração recém-partido queria distância, pelo menos, por algum tempo de meninas, não que gostasse de meninos, mas ver a Carlinha saindo do cinema com um colega da sua classe de mãos dadas foi à despedida, do que ele esperara ser amor. Com o tempo, percebeu que era apenas paixão de adolescência, porém aquilo doeu e serviu de lição para não confiar demais em cabelos loiros, olhos castanhos e lindas pernas.
Já alegre com a bebida ouve uma moça pedir no bar.
— Poderia fazer alguma bebida com licor de cacau, baileys e cointreau?
— Tudo Junto?
— Isso!
— Tudo bem
Quando Beto olha para seu lado esquerdo vê pela primeira vez, Manu. A princípio, achou ela um pouco prepotente em pedir uma bebida que não fosse do cardápio. Esperou curioso para ver o que garçom prepararia. Para sua surpresa era um drink em copo de licor com aspecto bem interessante. Ela virou de uma vez, voltou à cabeça e disse:
— Garçom mais um para o meu amigo aqui do lado — e olha para Beto com o sorriso mais doce.
Passaram a noite assim, rindo, bebendo e ouvindo música. Ele encantado, não conseguia parar de olhar para aquele rosto delicado de traços finos, olhos verdes, boca avermelhada. De vez enquanto ela mordia os lábios, fazia uma pausa, olhava para cima, como que procurando palavras e gentilmente dizia que havia esquecido o que tinha para falar.
Continua...
2 comentários:
poxa vida vc vai matar a Manu?
bru!! esta ótimo!!! continua!!!
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