sexta-feira, 6 de julho de 2012

20/04/2012 - Algum lugar


20/4/2012 – Em algum quarto de algum lugar

A porta fechou-se delicadamente. Levou com ela algumas garrafas de pinga, vodka e whisky. Tinha no bolso um saquinho de pão escrito à mão “crazy heart” com alguns doces e balas coloridas.

Em frente à porta fechada podia ver todo o quarto. Duas prateleiras vazias, no qual aproveitou para colocar as bebidas. Uma cama de solteiro com um cobertor dobrado em cima do travesseiro. Ao lado da cama um pequeno criado mudo com um abajur de luz amarela e nenhuma janela. Olhou para trás e pensou se deveria trancar a porta. Optou por não fazer nada. Estava mais interessada em experimentar a bala rosa.

Sentou ao pé da cama com o “crazy heart” e levou o saquinho bem próximo ao seu rosto e com um olho examinou o que tinha lá dentro. Enxergou a bala rosa e tratou de pegá-la com cuidado para que não escapasse de seus dedos. Abriu a primeira garrafa que estava na ponta da prateleira. Era vodka. Deu um gole e imediatamente sentiu um amargo de dar arrepios, segurou o líquido na boca antes de engolir. O primeiro gole desceu ardendo até cair como uma bomba em seu estômago. E foi assim até o 10º gole, foi o máximo que conseguiu contar.

A essa altura já estava rindo dos desenhos que involuntariamente a tinta da parede formara. Via coisas incríveis, coelhos sentados, rostos desconhecidos e quanto mais olhava mais desenhos apareciam e se modificavam. Sua mão estava molhada de suor. O fato de ter esquecido o gosto da água a fez lamber a palma da mão. Sentiu a saliva um pouco mais salgada.

Ao deitar na cama teve a sensação de que o colchão era inflável apertou várias vezes, repetidamente. Virava de um lado para outro e sentia-se engolida por ondas gigantes. Ela parou, ficou com medo de realmente ser engolida pelo colchão que não sabia se era inflável.

Olhou para o teto e percebeu que estrelas brancas caiam sobre todo o quarto. Com um brilho no olhar, riu bem alto de tanta felicidade que sentiu. Engasgou-se com alguns doces que tinha deixado em baixo da língua. Tentou se levantar, porém não sabia mais onde estava muito menos há quanto tempo. Não lembrava se a porta estava trancada e se tinha chaves.

Não se importava em saber onde estava, queria admirar aquele céu, as estrelas e imaginar o universo paralelo em que se encontravam todas as coisas. Seu coração batia tão forte que ao levantar novamente se deparou com uma menina, conforme chegava mais perto, à menina também. Foi então que descobriu que dentro daquele quarto podia colocar quem quisesse. Poderia imaginar qualquer lugar do mundo, mas ela não desejava recriar suas referências. Queria esquece-las e ficar sozinha dentro daquele sonho.

Começou a chorar e algumas lágrimas escorreram pelo rosto. De cabeça abaixada sentiu uma leve onda de ar. Ao erguer viu uma linda borboleta verde e azul cintilante, no qual voava por todo o quarto, até parar em frente à porta e como um sopro entraram milhares de borboletas. Elas rodam, voam, se chocam, caem e deixam no ar uma poeira cinza. Tentando sair da cama percebe que agora existia um chão de borboletas sem vida e que se pisasse, esmagaria aquelas criaturas e conviveria com o peso da consciência de desejar correr por todo quarto.

Atordoada com o som que ecoava descontroladamente olhou para o teto e viu um coração humano, pendurado por uma fina linha prestes a arrebentar.  Subiu em cima da cama para pega-lo, mas não alcançava e as batidas a assustavam, até que a linha se rompeu e o coração caiu na cama e rolou para a beirada, tombando no chão e se desfazendo em poça de sangue.

O sangue fez com que as borboletas renascessem. Assustadas todas posaram nas costas dela, que desesperada tentou arranca-las, mas em vão. Sentia o peso de sua escolha nas costas. Quando acordou pressentiu uma extensão em seu corpo que jamais conhecera. Agora tinha asas.

Comeu a bala azul, caminhou até a porta, olhou para trás, viu a menina, as estrelas no chão, pedaços do coração, garrafas vazias. Abriu a porta e entrou em outro quarto, carregando consigo asas e o saquinho “crazy heart”.

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