Andei pelada pela tua casa, deixando uns poucos fios de cabelo no chão do banheiro. Fugi da sua cama e torci para não me chamar libertinamente e colocar-me por de baixo de você. Com as unhas roídas, esmaltes descascados, escondi minha mão para não tocar tua pele morta e em decomposição pelo tempo que havíamos gastado ali, na tua casa fria. Perdi as contas, de quantas vezes olhei para o teto como se fosse céu e assim não sentir você em mim. Não saiu nenhum gemido de mim, mas por dentro gritei para seus olhos jamais encontrarem o meu.
Desejei o maço de cigarros só para mim. Egoísta que eu sou desejei que o amor fosse só para mim. Repudiei o cheiro da tua camisa usada e suada sem alguns botões, porque a tirei com força e com raiva. Não devolvo, usarei quando me cansar de mostrar meu corpo nu, enquanto volto da cozinha de mãos vazias, já que os ratos levaram toda a comida ruim e barata comprada no supermercado falido.
Não quero deitar de bruços na sua cama, com meus óculos de grau recitar palavras de amor, porque amor não há mais aqui. Perdi infinitos dias para ficar molhada nas tuas mãos, secas e geladas incapaz de segurar e esquentar meu pequeno coração pulsante, que te dei na noite em que nos conhecemos.
Guardo segredos em meus lábios vermelhos e gastos. Nos olhos fundos dominados pelas noites mal dormidas, guardo cenas estupidas e engraçadas. Não te conto quem sou agora e não desabotoarei minha camisa na sua frente, no meio fio da luz que entra pela janela desse quarto pichado e com cheiro de cinema pornô do centro de São Paulo.
Não peço desculpas pelo meu ato desesperado e descontrolado. Matei-te com cinco facadas no coração e deixei que sangrasse até ensopar o chão de madeira antigo, que sempre pedi para trocar. Deixei que seus olhos fechassem aos poucos e tampei tua boca com minhas mãos tremulas, para não ouvir teu grito de socorro. Você está morto agora, não adianta pedir para ficar. Você foi embora por que eu quis.
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