quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Primeiras páginas #3


Manu, estudante, prolixa e tagarela era diferente das meninas da sua idade, não ligava para modismo e reclamava sempre da capacidade de conseguir derrubar tudo que tinha a sua volta. Dificilmente interessara por algum menino, achava a maioria imaturo e machista, mas Beto parecia diferente, não ficava como seus amigos, tentando convencer meninas a irem para sua casa e sem perceber estava discretamente atraída por ele, mesmo já o tendo visto outras vezes naquele pub e no corredor do colégio.


— Então Manu preciso ir. A gente se vê no colégio?
— Sabe esse negócio de se ver no colégio é tão relativo, talvez eu vá, talvez eu mude, ainda não sei. De repente a gente se encontra por lá e se eu achar conveniente até falo com você. — Ela pausa para ver se ele esboçava alguma reação, mas o modo como a olhava não mudou. — É brincadeira, a gente se vê.
— Ok — Responde fazendo um esforço enorme para processar aquele monte de palavras desconexas. — Quer companhia até sua casa?
— Não obrigada! Acha que não consigo chegar em casa? Foram só algumas doses daquela bebida. Foi uma ótima invenção, não foi?
— Foi sim. A gente se vê então — Beto despede-se com beijo no rosto e uma abraço apertado em Manu e caminham em direção opostas.

Terminado seu primeiro cigarro, Beto andava de um lado para o outro, até ver um homem na recepção do hospital, segurando as mãos de uma criança que aparentava ter uns cinco anos. Resolveu ficar próximo e escutá-lo.
— Gostaria de saber sobre Manu Franson, ligaram para mim e vim assim que soube, como ela está?
Imediatamente Beto dirigiu-se ao homem. — Oi! Sou Beto, amigo de Manu estava próximo a ela na hora do acidente — deu a mão para cumprimenta-lo.
— O que aconteceu? Como ela está?
— Ela atravessou a rua com pressa, não viu o carro. O médico disse que está em uma cirurgia e que seu estado é grave.
— Grave! Sou o ex-marido dela e essa é minha filha — Vira para atendente na recepção. — Quero falar com o médico!
— Qual seu nome? — pergunta Beto
— Maurício e o dela Helena.
— Olá Helena! — Beto abaixa-se para falar com a criança. — Sua mãe vai ficar boa logo.
— Ela não é minha mãe, mas vai ficar bem, não vai?
— Vai sim — responde com um milhão de dúvidas sobre como era à vida de Manu e o que havia feito esse tempo todo.

Beto senta esparramado no sofá da sua casa, com um copo de uísque na mão depois de horas aflito no hospital, começa a reparar mais a sua volta e percebe o vazio e a ausência de objetos que o fizesse rir ou sentir saudade de algum momento da sua vida. Relaxou mais um pouco após o primeiro gole, e a sensação de que não havia ninguém naquele espaço que completasse a solidão que criou durante anos, estava mais latente do que nunca e ecoava pela rua inteira.

Tira do bolso um pequeno papel branco com um número de telefone. Encara aquele papel por alguns minutos, dá mais um gole e pega o telefone perdido no sofá. Disca alguns números, faz uma pausa e desiste da ligação, volta a discar novamente, mas desliga outra vez. “Será que ligo para o Maurício e pergunto tudo sobre a vida dela ou espero uma resposta se viverá ou não e eu mesmo pergunto a ela?”. Com dúvida, Beto liga para o hospital e desta vez recebe a notícia de que após a cirurgia Manu estava na UTI.


17 de maio de 1993

— Oi...tudo bem? Nos conhecemos no pub ontem é claro que se lembra, não é? Você já está no último ano? Já sabe o que vai fazer? — pergunta Manu.
Beto ri com tantas perguntas.
— Ainda não. Acho que vou fazer letras, sei lá, não quero pensar nisso agora. Eles começam a andar sem direção.
— E você? — Beto a olha de canto com um sorriso.
— Está de brincadeira não está? Se você que está no último ano não sabe, eu que estou no primeiro muito menos.

Apaixonado e esperto como semprei, Beto encara Manu, segura em sua cintura sem apertar demais, sem ser leve demais. Empurra ela sutilmente contra a parede, levando sua boca próxima a dela, olha em seus olhos mais uma vez até se fecharem quando as bocas se encontram. O sol tímido esquentava os dois, que se perderam dos seus pensamentos em um beijo com amor. E esse beijo intenso durou três anos, cinco meses e alguns dias.
Foi em uma noite qualquer de um dia sem muita importância que cada um tomou a decisão de seguirem só.
- Olha Manu! Vai ser muito difícil frequentar a mesma faculdade que  você, mas não posso me sufocar sozinho nessa relação. Preciso dominar o que sinto! Quero ter o controle e com você perdi a noção do que é ser livre, do que é não me preocupar com o que você faz.
- Sabe Beto você tem razão! Aliás, eu me sinto na gaiola! até entendo esse seu sentimento e pensando bem quando me olho no espelho vejo um mundo a ser descoberto, de aventuras e novas experiências e VOCÊ não me permite viver sem sentir culpa.
- Sentir culpa!! Sentir culpa com o quê?  
- Com o fato de saber que não estou mais  feliz ao seu lado

Os dois calados sem reação começam a imaginar o que fariam com as recordações que guardaram durante aquele tempo. Manu vai embora, Beto acende um cigarro, seu primeiro cigarro e chora.

No caminho Manu pensa “devia ter dito a verdade, devia ter dito que se ele realmente me amasse superaria essa crise. Como sou burra é lógico que gosto dele”. Incomodada com a situação sabia que seria influenciada pelo seu coração a voltar a falar com Beto. Eles não podiam terminar assim, brigando.

Os pais de Manu resolveram viajar pelo  mundo e ela teve que encarar uma rotina de morar sozinha e numa pensão próxima a sua faculdade, tanto ela como Beto alguram um quarto, separados. Não queriam dividir o mesmo espaço, um dos motivos para refletirem sobre se valeria a pena ficarem juntos ou encarar o fato de que podiam perder o amor verdadeiro para comprovar que ele existia.

continua...

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